Os médicos irão buscar locais que ofereçam melhores oportunidades, da mesma forma que formados em outras áreas fariam

 

A Prefeitura de Campo Grande abriu seleção para contratar 28 ginecologistas para atuar em postos de saúde. Não houve interessados. Também foram ofertadas 92 vagas para pediatras, mas apenas oito foram preenchidas.  É extremamente óbvio que algo está errado. Também é evidente como esse déficit vem prejudicando a população. São constantes as queixas de falta de especialistas nas unidades de saúde e, por muitas vezes, os pacientes precisam deslocar-se por quilômetros para conseguir atendimento. Frequentemente, aos finais de semana, há pediatras atende-do em apenas um dos turnos e somente em um dos Centros Regionais de Saúde. Assim, com o filho doente nos braços, o pai ou mãe precisa pegar de três a quatro ônibus para sair da região das Moreninhas, por exemplo, até a unidade do Coronel Antonino.

 

Um verdadeiro sacrifício para quem está esperando por socorro. O problema maior parece estar também evidente: baixo salário, aliado às péssimas condições de trabalho. Afinal, depois de seis anos de faculdade e pelo menos mais dois de especialização, os médicos irão buscar locais que ofereçam melhores oportunidades, da mesma forma que formados em outras áre-as fariam. Por isso, o salário-base de R$ 2,8 mil, somado a gratificação de R$ 830 por cada plantão de 12 horas, não foi atrativo o suficiente para que médicos largassem os consultórios ou até optassem por outras ofertas de emprego na rede pública que ofereçam valores mais altos. Consciente da dificuldade, a Secretaria Municipal de Saúde já acionou o Ministério Público Estadual para discutir propostas que possam melhorar a gratificação dos profissionais.

 

O Sindicato que representa a categoria também foi chamado para negociação, buscando apresentar quais as exigências para que os profissionais tenham interesse nas vagas. As contratações são tão urgentes quanto as necessidades dos pacientes. Hoje mulheres precisam esperar meses para marcar exames de rotina com um ginecologista, problema que foi agravado com a falta de materiais nos postos durante o ano passado, o que fez com que os atendimentos ficassem suspensos por meses. Os campo-grandenses não podem continuar sendo penalizados. Não adianta e nem seria justo contar apenas com o Programa Mais Médicos, que teria objetivo de levar profissionais a locais mais afastados e onde não havia interessados nas vagas. Inclusive, o programa do Governo Federal paga R$ 10 mil aos profis-sionais (excetuando-se os cubanos, que recebem R$ 3 mil e o restante da verba fica com o governo de Cuba). Em Mato Grosso do Sul mesmo, temos exemplos de cidades enfrentando problemas para contratar médicos com salários bem superiores. Ainda em fevereiro, a Prefeitura de Costa Rica ofertou  R$ 28 mil para contratar um pediatra e, ainda assim, estava com dificuldades. Nem se compara ao valor pífio oferecido na Capital. Não podemos nos amparar somente na desculpa que constantemente vem sendo dada pelo Governo, de não haver médicos suficientes no Brasil. É preciso centrar no verdadeiro foco do problema, com remunerações justas e condições de trabalho. Só assim as necessidades dos pacientes estarão sendo tratadas como prioridades, o que já deveria estar sendo feito.   

 

 

Artigo publicado no editorial do jornal Correio do Estado
no dia 16/05/2014

 

 

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