Por ocasião das comemorações do Dia Internacional da Mulher, me pediram que comentasse as dificuldades vividas pelas médicas, em conciliar as atividades profissionais e a vida doméstica, a maternidade e os cuidados infantis.

Creio que essas dificuldades são comuns a todas as mulheres trabalhadoras, pois no Brasil, independente da classe social e do grau de escolaridade, a responsabilidade do trabalho doméstico é atribuída às mulheres – apenas porque são mulheres. Essa divisão sexual do trabalho doméstico, padrão de comportamento da nossa sociedade, faz com que esse trabalho seja “naturalizado”, como sendo inerente à natureza da mulher, representado como fruto do amor e do cuidado. Assim, toda forma de cuidado requisitado por qualquer integrante da família geralmente é dispensado pela mulher. Cabe também a ela a obrigação de acompanhar os doentes, pais, sogros e filhos, às consultas médicas, ao dentista, ir às reuniões escolares, acompanhar a tarefa dos filhos, fazer supermercado, açougue, etc. Quando algo falta, não foi feito ou não está do agrado de algum membro da família, é a mulher quem é questionada. Mesmo quando trabalha fora, como no caso em questão, contribui economicamente com o sustento da família e possui empregados (quase sempre outras mulheres) que façam esses serviços, a responsabilidade de estar bem feito continua sendo dela.

Naturalmente há exceções: hoje já vemos homens assumirem essas atividades e a criação dos filhos após uma separação ou viuvez. Mas quando uma nova mulher ingressa nesta família, espera-se que ela assuma esses cuidados.

Ao assumirem a vida adulta, as mulheres estão condicionadas a classificar tais tarefas como inerentes à condição feminina. Nas poucas situações em que há contribuição masculina, ela é vista socialmente como um agrado, gesto de afeto para aliviar a mulher amada da sobrecarga de tarefas, uma “ajuda”. Ajuda essa que pode cessar a qualquer momento, pois não é revestida de caráter de compromisso social ou familiar, reforçando a idéia do dever da mulher. Ouvimos com frequência homens afirmarem que trabalham muito, portanto ao chegar em casa querem descansar, de preferência sem choro ou perturbação das crianças, como se as mulheres também não se cansassem no trabalho profissional.

Condicionadas a esse papel, nós nos apressamos em defender nosso direito de executar essas tarefas, que constroem nossa identidade e também nos dão prazer, pois estamos cuidando de entes amados e do próprio lar. Mas isso não descaracteriza a natureza de trabalho não remunerado e não reconhecido, quase invisível: só é visto quando não é feito. Quando somado ao trabalho profissional, nos expropria de tempo, energia e qualidade de vida. O tempo para se dedicar à profissão, estudos, atualização, congressos, lazer, repouso, cuidar de si mesma, torna-se cada vez mais escasso.

O não reconhecimento do trabalho exercido na esfera doméstica como atividade laboral, a sua não valorização social e não remuneração são condições de agravo à saúde da mulher.

Estudos da ONU mostram que o PIB dos países industrializados aumentaria em 40% se o valor do trabalho não remunerado da esfera doméstica fosse incorporado nas estatísticas de produção (₁).

A profissão médica, a alta escolaridade, o alto nível de responsabilidade laboral, visto que lidamos com a vida humana, e com a morte, não nos imunizam dessa realidade. Antes, são fatores agravantes das dificuldades profissionais, visto que se somam a plantões extenuantes, múltiplos empregos, necessidade de atualização e reciclagem, cobrança por desempenho e por ganho econômico. Além da sensação de culpa por tentar equilibrar a atividades domésticas e profissionais, na maioria das vezes sem conseguir. Os cargos de direção e de tomada de decisões em qualquer âmbito da profissão médica quase sempre são exercidos por homens, visto que as mulheres médicas estão criando os filhos, tomando tarefa, dando o jantar, servindo de motorista para as atividades cada vez mais frequentes das crianças. Quando ela delega essas funções e se dedica mais às atividades profissionais, vem a impressão social de ser “desnaturada”, “sem instinto materno”, ou até de estar abandonando marido e filhos. O impacto da dedicação da mulher ao trabalho, refletido na esfera da família, na qualidade (ou sua ausência) das relações conjugais, interpessoais, separações e divórcios, tem sido cada vez mais estudado.

O trabalho feminino tem sido visto como causa de mudanças na formação e formato das famílias. Porém, alguns estudos sociais afirmam que não há certeza quanto aos benefícios do trabalho feminino para as mulheres (Arriagada, 1997; Fonseca, 2000). Para alguns, ele aumenta o poder de barganha na relação familiar. Para outros, como ele se acumula com o trabalho doméstico, reduz a autonomia da mulher, pois se torna sobrecarga de trabalho, somada à pressão por desempenho, por atender padrões estéticos (jovem e magra), ser simpática e agradável, evitar conflitos, cuidar bem dos filhos (pois geralmente o produto final dessa educação é atribuído às mães), cuidar bem dos pacientes, ser cidadã consciente, reciclar lixo, ser politicamente correta, sexualmente ativa e ter prazer. 

Haja calmante, antidepressivos, ioga, reza, meditação e tudo mais para aguentarmos. A OMS alerta para o aumento expressivo de mulheres dependentes de álcool, tabaco, tranquilizantes, remédios para emagrecer, além de hipertensão, diabetes, obesidade, patologias cardíacas e transtornos mentais. Se a mulher exerce papel social de cuidadora, quem assumirá esse papel se ela adoecer física, mental ou espiritualmente?

A bioética feminista reflete acerca de condições que aprisionam homens e mulheres em papéis sociais desiguais, causando sofrimento e injustiça. Por si só, a bioética não é capaz de transformar o cotidiano, mas pode contribuir para desnudar a consciência, visando, por meio da razão e da reflexão, eliminar padrões de comportamento arcaico, que disseminam dor, sofrimento, adoecimento e morte prematura de pessoas. Assim, homens e mulheres podem, juntos, construir novos padrões sociais que levem prosperidade, harmonia e justiça para as gerações vindouras.

 

Luciana Moura Covre
Ginecologista e obstetra, 1ª secretária do CRM-MS e membro da Sociedade Brasileira de Bioética.

(1) As idéias desenvolvidas neste artigo foram inicialmente apresentadas nos estudos da Antropóloga e Doutora em Bioética Dora Porto, membro do Comitê Assessor Redebioética/UNESCO.

1- Melo, HP: A invisibilidade do trabalho Feminino. In: Choinak L; Aposentadoria: direito das donas de casa. Brasília Centro de documentação e informação da Câmara dos Deputados 2002.

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