Em 1905, o oftalmologista tcheco Eduard Zirm (1863-1944) conheceu Alois Glogar, que ficara cego ao limpar seu galinheiro com cal. Na mesma época, o garoto Karl Brauer, de 11 anos, foi levado à clínica de Zirm, em Olmutz, na atual República Tcheca. O garoto sofrera um acidente e tinha fragmentos de metal nos olhos. Quando Zirm percebeu que não conseguiria salvar a visão do menino, optou por uma solução radical: retirou suas córneas e as transplantou para os olhos de Glogar. Um olho apresentou complicações, mas no outro a cirurgia foi um sucesso. Devolveu a visão a Glogar. Um século depois, o transplante de córnea é um dos tipos mais comuns de transplante. Cerca de 100 mil cirurgias são feitas por ano no mundo. Ainda assim, há uma fila de 10 milhões de pessoas à espera do transplante. A fila anda quando um doador morre, e sua família ou o hospital alertam a tempo a central de transplantes, pois as córneas têm de ser retiradas até seis horas após a morte. Feita a cirurgia, o paciente não está livre dos riscos de infecção ou rejeição do transplante pelo organismo. A fila de espera – e o risco de rejeição – pode estar no fim. Médicos canadenses e suecos anunciaram em 25 de agosto, na revista Science Translational Medicine, ter criado as primeiras córneas humanas sintéticas. Elas foram cultivadas em laboratório pela doutora May Griffith, do Instituto de Pesquisas Hospitalares da Universidade Ottawa, no Canadá. As córneas foram produzidas em moldes usando colágeno, um tipo de proteína com textura gelatinosa que existe nos ossos e ligamentos. Só que nesse caso trata-se de colágeno sintético, feito pelo laboratório FibroGen, de São Francisco. Nenhum paciente teve rejeição. As córneas se tornaram sensíveis ao toque e produzem lágrimas Em 2008, o doutor Per Fagerholm, da Universidade Linköping, na Suécia, começou os testes clínicos. Implantou as córneas em dez pacientes com fissuras na córnea ou que sofrem de estágio avançado de ceratocone, doença degenerativa que causa cegueira. Cada paciente teve a córnea danificada de um olho trocada pela sintética. Após dois anos, os médicos descobriram que as células e os nervos dos pacientes haviam absorvido o implante. O resultado é uma córnea semelhante à normal. “A regeneração dos nervos foi mais rápida do que se os pacientes tivessem recebido córneas humanas”, diz Griffith. Nenhum paciente apresentou rejeição. As córneas se tornaram sensíveis ao toque e começaram a produzir lágrimas para oxigenar os olhos. Dos dez pacientes, quatro recuperaram a visão. Os outros seis tiveram melhora sensível e, com o uso de lentes de contato, recuperaram uma acuidade visual comparável à dos pacientes que recebem o implante tradicional. A doutora Griffith está cultivando córneas para 25 pacientes. Em 2011, iniciará o último estudo clínico antes da homologação da fabricação comercial das córneas. É uma boa notícia para muitos brasileiros. No primeiro semestre de 2009, havia 22.700 pessoas na fila da córnea no país, e a média de espera era de três anos. Durante o ano, foram feitos 12.723 transplantes. Só o Estado de São Paulo conseguiu zerar a fila de espera em 2009. Fonte: Revista Época – 05/09/2010

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