Para especialistas, UPAs de Dilma Rousseff (PT) e AMEs de José Serra (PSDB) são prioridades equivocadas Profissionais apontam que ampliar números de posto de saúde e equipe de Saúde da Família traz resultados melhores Quando o tema é saúde, duas siglas são repetidamente pronunciadas pelos principais candidatos a presidente. A petista Dilma Rousseff promete levantar 500 UPAs (prontos-socorros 24 horas). O tucano José Serra pretende abrir 154 AMEs (clínicas com médicos especialistas). Especialistas em saúde concordam que há carência de prontos-socorros e clínicas com especialistas, mas fazem um alerta: UPA e AME são prioridades equivocadas. Para eles, as promessas dos candidatos deveriam ser melhorar e multiplicar os postos de saúde e as equipes de Saúde da Família -a “porta de entrada” do SUS (Sistema Único de Saúde). Cada equipe de Saúde da Família se responsabiliza por um bairro e periodicamente visita todas as casas. Ensina as famílias a evitar doenças, faz diagnóstico precoce e acompanha os tratamentos. Os postos de saúde, que devem estar espalhados pela cidade, oferecem consultas agendadas com clínicos, pediatras e ginecologistas. PORTA DE ENTRADA O raciocínio é simples: a “porta de entrada” deve ser a prioridade porque, ao cuidar das necessidades básicas de saúde, evita que as pessoas adoeçam ou, já doentes, tenham complicações e precisem do serviço especializado do AME ou da UPA. Um exemplo: se a pessoa teve um diagnóstico precoce de hipertensão, toma os remédios e se consulta no posto de saúde a cada três meses, ela dificilmente sofrerá dos desdobramentos da pressão alta, como um infarto ou um AVC. Assim, não terá de ser levada de emergência para uma UPA. “Os candidatos não falam da atenção básica à saúde porque não tem apelo para o eleitor, não rende voto”, afirma Ligia Giovanella, médica e pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública. Calcula-se que 85% das necessidades de saúde da população possam ser resolvidas pelos postos de saúde e pelo Saúde da Família. Só os 15% restantes precisariam de prontos-socorros, de hospitais e de especialistas -mais caros do que a “porta de entrada”. “Priorizar UPA e AME é tapar o sol com a peneira”, concorda o médico Nelson Rodrigues dos Santos, diretor do Centro Brasileiro de Estudos da Saúde. “Mas é o que dá ibope aos candidatos.” CARÊNCIAS A “porta de entrada” -que é financiada pela União, pelos Estados e pelos municípios- tem muitas carências. No Estado do Rio, só 31,3% da população é coberta pelas equipes de Saúde da Família. A cidade do Rio tem 171 postos de saúde -pelos parâmetros do Ministério da Saúde, deveria ter no mínimo 206. Para Antonio Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, a implantação de UPAs e AMEs -sem as equipes de Saúde da Família e os postos de saúde necessários- desorganiza o SUS. Ambos, no fim, também ficam lotados. “O paciente que não consegue consulta no posto de saúde e acaba procurando a UPA. Mas fica horas na fila e, quando é atendido, ouve do médico que o caso dele não é de emergência”, diz. E continua: “No posto de saúde, diante de qualquer dorzinha no peito, o médico vai mandar o paciente para o cardiologista do AME. Qualquer diarreia, para o gastro. Ganhando uma miséria no SUS, médico nenhum quer assumir responsabilidade”. Na opinião de Lopes, os assessores de ambos os candidatos “enxergam a saúde pela janela dos gabinetes”. Dilma defende policlínicas semelhantes aos AMEs. Serra quer mutirões de cirurgias de catarata, hérnia e próstata. Segundo o médico Gilson Carvalho, consultor do Conasems (entidade dos secretários municipais de saúde), o mutirão é emergencial e não pode virar política de saúde. “O paciente precisa ser atendido quando precisa, e não quando há número suficiente para um mutirão.” | Os candidatos não falam da atenção básica à saúde porque não tem apelo para o eleitor Priorizar UPA [ prontos socorro 24 horas] e AME [Clínicas com médicos especialistas] é tapar o sol com a peneira. Mas é o que dá ibope Fonte: Folha de São Paulo – 19/09/2010

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