Áreas tradicionais da medicina perdem espaço para estética, que oferece salários mais altos

Procuram-se novos pediatras e clínicos gerais. Essa é uma realidade na medicina hoje. Enquanto áreas ligadas à estética, como dermatologia e cirurgia plástica, atraem cada vez mais estudantes em busca de uma alta remuneração, as carreiras tradicionais sofrem com a falta de novos profissionais. É o que diz a diretora do Hospital Quinta D’Or, na Quinta da Boa Vista, Mônica Guedes, que também atua no Hospital Pedro Ernesto, ligado à Uerj.

– Se você entrar em uma turma de Medicina hoje e perguntar quem quer fazer pediatria, uns dois alunos vão levantar o braço. A primeira pergunta que eles fazem é “qual área dá dinheiro?”. Todo mundo quer fugir do plantão de 24 horas e dos telefonemas de emergência na madrugada – comenta a médica.

A presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj), Márcia Rosa de Araujo, explica:

– Em carreiras como pediatria e clínica médica, o médico ganha só pela consulta. Já um cirurgião cobra também pelo procedimento.

Daniel Pinto, aluno do 6º ano de Medicina da Unigranrio e interno no Quinta D’Or, sempre gostou de ciências no colégio (especialmente biologia), mas não levava muita fé que conseguiria uma vaga no curso. Após tentar em 2003 e 2004, ele prestou vestibular para Enfermagem em 2005. Passou, cursou um ano e saiu com a convicção de queria mesmo ser médico. Agora, pensa na especialização.

– Há um tempo, pensava em ginecologia e obstetrícia. Hoje, estou mais para cirurgia geral, mas ainda não me decidi – conta.

O diretor médico do hospital, Guilherme Villa, explica que se aprofundar numa área ficou obrigatório, devido à rapidez dos avanços científicos.

– Quando eu me formei (em meados dos anos 1990), existia apenas radiologia geral. Agora, são várias divisões diferentes, com novidades a todo momento. É preciso se atualizar sempre, e a maioria dos artigos, de leitura indispensável, é em inglês. Na minha área, para manter o título de especialista válido é preciso fazer uma prova a cada cinco anos, além de somar pontos na participação em congressos – diz Villa.

Mas o aspirante à medicina que não ficar apegado aos grandes centros também pode se destacar. Segundo o Conselho Federal de Medicina, o país não tem profissionais demais. Eles estão, sim, maldistribuídos. A cidade de São Paulo, por exemplo, tem um profissional para cada 239 habitantes. Já no interior de Roraima, a relação é de um para cada 10.306 moradores. Marcella Carneiro conhece essa realidade. Mineira de Ubá, ela veio morar no Rio para estudar, mas pretende voltar após a residência no Quinta D’Or:

– Na minha cidade ainda tem espaço para quem tem formação geral, o que é difícil no Rio ou em São Paulo.

Outro caminho promissor é o da medicina esportiva, que não está restrita a atletas profissionais. As atividades físicas, cada vez mais, fazem parte do cotidiano das pessoas.

– A medicina esportiva tem crescido muito. É uma especialidade voltada para orientar os esportes de acordo com as características de sexo, faixa etária etc. Idosos, por exemplo, necessitam fazer mais musculação – comenta Márcia Rosa de Araújo, presidente do Cremerj, antes de mandar um recado para os futuros doutores: – A escolha da medicina não deve ser um caminho para a riqueza. O mais importante da medicina é saber ouvir, conversar e atuar como um detetive. É preciso trabalhar a cumplicidade com o paciente.

Fonte: O Globo

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