Um bolo pequeno e dramaticamente repartido. É esse o retrato da tecnologia no Sistema Único de Saúde (SUS). Para atender 152 milhões de pessoas, o equivalente a 80% da população, as unidades de saúde pública contam com apenas 56% dos aparelhos para diagnóstico e tratamento de doenças disponíveis no país. O restante está exclusivamente a serviço de clientes privados ou de planos de saúde, público que corresponde a um terço da clientela do governo. O cálculo foi feito pelo GLOBO, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O país tem 704,8 mil equipamentos, classificados em seis grandes grupos pelo IBGE (de diagnóstico por imagem; de manutenção da vida; de terapia por radiação; de funcionamento por métodos gráficos e óticos; e “outros”). Desse total, 396,9 mil estão alocados em serviços próprios ou credenciados pelo poder público. É como se cada máquina tivesse de ser dividida por 382 pacientes, mais que o dobro do verificado na saúde privada (151). Do prosaico aparelho de pressão à ressonância magnética, a desproporção é imensa.

Há no país 1.358 aparelhos de raios X para densitometria óssea, por exemplo, só um quarto na rede pública (367). São 3.019 tomógrafos no total, dos quais 1.145 no SUS. O mesmo vale para aparelhos de endoscopia digestiva (7.529, contra 2.972), eletroestimulação (19.230, contra 7.644), laparoscopia (3.458, contra 1.402), eletroencefalograma (3.123, contra 1.305) e muitos outros. Números que ajudam a entender a longa espera por exames e tratamentos.

Não raro, a oferta de serviços não atende ao previsto pelo próprio Ministério da Saúde em normativos para orientar os gestores do SUS. Portaria de 2002 prevê, por exemplo, um tomógrafo para cada cem mil habitantes, quando há, de fato, um para cada 166 mil brasileiros (ou 132 mil se considerado apenas o público do SUS). Conforme a norma, haveria um aparelho de raios X para densitometria óssea para cada 140 mil pessoas. Na realidade, segundo os números do IBGE, há um para cada 520 mil (ou 414 mil, levando-se em conta a clientela do SUS).

Espera por exame em Brasília pode chegar a quatro meses

Coordenador da Câmara de Diagnóstico por Imagem do Conselho Federal de Medicina e ex-presidente do Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR), Aldemir Soares diz que, além da histórica falta de investimentos em tecnologia, a baixa remuneração desestimula unidades de saúde privadas a se credenciar ao serviço público.

– A tabela do SUS é a mesma desde 1995. Os equipamentos aumentaram a produtividade, mas isso não cobre uma defasagem de tanto tempo. O governo paga R$86 por uma tomografia do crânio, sendo que os planos pagam de R$200 a R$300 – exemplifica.

Soares explica que a escassez numérica não é o único problema. Como no SUS há cotas de exames por cidade, nem sempre os aparelhos disponíveis podem realizar o total demandado, mesmo que as máquinas tenham capacidade para isso. Em outros casos, a produção é baixa por falta de manutenção e pessoal especializado para operá-los.

– O ideal seria otimizar os recursos que existem e depois verificar a real necessidade de mais equipamentos – diz.

Em Brasília, um paciente chega há esperar quatro meses só para marcar um exame de média ou alta complexidade, segundo a Defensoria Pública, que auxilia pacientes a conseguir acesso a tratamento. Uma cintilografia (para diagnóstico de câncer, problemas cardíacos e hepáticos, entre outros) pode levar até cinco meses.

– Meu coração está pedindo arrego e tenho medo de a situação piorar. Quero ver meus netos crescerem – desabafa Guilhermina Ribeiro Vitorino, de 66 anos, que desde fevereiro aguarda a chance de fazer o exame (fundamental para que inicie o tratamento) na rede pública e procurou ajuda na defensoria.

A empresa que fornece material radioativo para a cintilografia parou há um ano de entregá-lo à Secretaria de Saúde do Distrito Federal por falta de pagamento. A pasta informa que o serviço será restabelecido nos próximos dias, graças a um acordo.

Até pacientes medulares, internados no Hospital de Base, o maior da capital federal, estão em compasso de espera. Há um mês internado por causa de uma hemorragia que o deixou paraplégico, Iago Barbosa de Souza, de 15 anos, está na expectativa de uma angiografia, que dará detalhes sobre sua lesão. Passa os dias deitado numa maca, encostada num corredor do pronto-socorro, onde os acompanhantes escolhem entre dormir em desconfortáveis cadeiras ou sobre colchonetes e papelões esticados no chão.

– Estou trazendo até o lençol de casa. As pernas do Iago vão afinando, ele vai se entristecendo, e nunca dão previsão do exame. Meu medo é que ele tenha mais uma hemorragia, e a situação se agrave – lamenta a mãe do garoto, Cristiane Barbosa Soares.

A Secretaria de Saúde do DF informa que estão em curso providências para desafogar o setor de neurocirurgia do Hospital de Base. Uma delas é um termo de ajustamento de conduta com hospitais privados, que hoje não recebem pacientes que ainda têm de ser operados.

Fonte: O Globo

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